
Sinto que o exército do lado esquerdo de meu cérebro, os meus
“maus garotos”, claro, estão prestes a tomar posse do campo
adversário. Prestes, eu disse…
Quando acordei nessa manhã, tive a sensação de que o tempo
desacelerava... de que ele havia de fato recuado... Ou seria eu?
Olhei no relógio e nada mais fazia sentido. Seis e meia da
madrugada?! Meu sono já tinha se esgotado apesar de eu não ter
pregado o olho antes das três. Tenho todos os motivos do mundo
para ficar angustiada...
Será assim que se instala a insanidade? É assim que tudo começa?
Preciso levantar da cama agora, talvez seja melhor... Algumas
pessoas dizem que se o ser humano não dorme por alguns dias seguidos
fica louco. Penso que já nascemos assim: loucos! Quando escutei essa
teoria pela primeira vez, achei graça, agora ela me assombra.
Levanto, quase nada me impede... Parece que minha lombar
ganhou vida própria nos últimos tempos e só sabe arruinar o resto
do corpo... Uma tortura constante! Mas um dia desses ainda vou
dar o troco. Renovei a academia e começo minhas aulas de
alongamento esta semana, ouviu?
Enquanto coloco água na chaleira para preparar minha dose de
cafeína matinal, percebo uma ligeira excitação no exército
inimigo. “Está bem, está bem, vou fazer um chá de ervas, verdes,
orgânicas, repletas de vitamina C, certo?” Assim aceito os “bons
garotos” em campo, assumindo a liderança...
Uma das coisas mais acertadas que fiz nos últimos tempos foi
assumir a presença de duas forças contrárias dentro dessa minha
linda cabecinha. Tudo parece mais simples desde então, simplista,
dualista, sim, claro!
Não acredite que o fato de aceitar os dois exércitos e
carinhosamente chamá-los de meus, tenha sido um processo indolor
e rápido... Não, isso não! Existe aí, pelo menos vinte anos de
árduo trabalho intelecto-emocional, isso eu admito!
Tudo começou, tenho certeza, quando coloquei fogo,
deliberadamente, num formigueiro na soleira da casa de minha
avó. Nada de mais?
Aconteceu aos dez anos de idade, foi o primeiro episódio que
marcou minha existência ele abriu, digamos assim, as portas da
minha consciência do “Bem e Mal”.
Os formigueiros sempre me fascinaram. Ficava encantada com a
organização de classes daqueles minúsculos seres. Passava parte
de minhas férias, analisando cuidadosamente o “material”
transportado por aqueles incansáveis soldados e nada me deixava
mais excitada do que a visão de um combatente em ação, carregando
um grão de arroz cozido ou mesmo uma folhinha verde, picotada com
maestria.
A soleira daquela porta foi testemunha viva do primeiro
embate. Depois de alguns dias de intensa observação, comecei a
sentir os primeiro sinas de crueldade despontando em minha
cabeça. Fui tomada por um desejo insistente, a idéia de colocar
fogo na porta de entrada do formigueiro, dominou-me por completo.
A visão da fumaça tomando conta das ante-câmaras, o corre-
corre para salvar a vida da rainha, o desintegrar das larvas.
Tudo aquilo me enebriava! Deitada ao pé da porta, com os olhos
fechados, já podia escutar os gritos de guerra dentro de minha
cabeça, a movimentação das tropas, o estratagema!
Chegaram mesmo a me convencer que seria por certo um tremendo
alívio para as pobres criaturas! Destinadas a passar sua curta
existência num ir e vir incessante e servil, eu poderia
acelerar seu retorno ao Edén, já devidamente purificadas pela
chama libertadora.
Num daqueles dias, durante minha inspeção de rotina na
soleira, senti que era chegada a hora, o poder de persuasão de
meu exército maléfico superava e muito, os pedidos sussurados de
clemência. Naquela tarde chuvosa, assinei a solução final.
Após percorrer parte do trajeto diário daquelas miseráveis
criaturas, desde a horta até a soleira, escolhi as armas. Peguei
uma garrafa de álcool na dispensa e uma caixa de fósforos
gigantes, daqueles que não queimam os dedos.
Sentei-me, calmamente, ao pé da porta e derramei,
o líquido em toda a volta do formigueiro. Cheguei a pensar que
talvez uma seringa fosse necessária para atingir as profundezas
daquele inferno social, mas para que perder mais tempo?
Encharquei o local e levantei para apreciar a vista. Algumas
miseráveis já cambaleavam, fora de seu programado rumo. Risquei o
palito e atirei. Uma ligeira explosão acendeu o clarão. O fogo
então espalhou-se lindamente, tomando vida.
Passou-se tudo num piscar de olhos, mas para mim e meus dois
exércitos aquela batalha foi longa demais. Antes mesmo da
extinção completa do fogo, comecei a estranhar a falta de
movimentação na entrada do formigueiro... O vai-e-vem foi sendo
tomado por uma mórbida paralisia, um incontável número de
cadáveres retorcidos jaziam na terra, alguns totalmente
carbonizados!
Abandonei o campo de batalha, perturbada pelos gritos de dor,
corri para abrigar-me na generosa mangueira do pomar. Sentei e
chorei.
Chorei pela saudade que já sentia, pela morte da rainha e
porque percebi que existia dentro de mim uma legião de
soldados, tão incansáveis quanto minhas adoráveis formigas,
soldados em mim.
Mas por quê fui me lembrar disso agora? Ah, sim, a dose de
cafeína matinal! O primeiro dilema do dia, tomar ou não tomar
café preto e forte com o estômago vazio?
Acho melhor não ler o jornal de hoje. Recomendações médicas.
Um comentário:
uma orquestra de formigas tocando bossa nova para você ,talentosa Gisela!
Parabéns! estou muito contente em te ter descoberto assim...
(um dia te digo como eheheh)
EVOÉ!!
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