sexta-feira, 17 de abril de 2009

Cafeína não!



Sinto que o exército do lado esquerdo de meu cérebro, os meus 

“maus garotos”, claro, estão prestes a tomar posse do campo 

adversário. Prestes, eu disse… 


 Quando acordei nessa manhã, tive a sensação de que o tempo 

desacelerava... de que ele havia de fato recuado... Ou seria eu?  


 Olhei no relógio e nada mais fazia sentido. Seis e meia da 

madrugada?! Meu sono já tinha se esgotado apesar de eu não ter 

pregado o olho antes das três. Tenho todos os motivos do mundo 

para ficar angustiada... 


 Será assim que se instala a insanidade? É assim que tudo começa? 

Preciso levantar da cama agora, talvez seja melhor...  Algumas 

pessoas dizem que se o ser humano não dorme por alguns dias seguidos 

fica louco. Penso que já nascemos assim: loucos! Quando escutei essa

 teoria pela primeira vez, achei graça, agora ela me assombra. 


Levanto, quase nada me impede... Parece que minha lombar 

ganhou vida própria nos últimos tempos e só sabe arruinar o resto 

do corpo... Uma tortura constante! Mas um dia desses ainda vou 

dar o troco. Renovei a academia e começo minhas aulas de 

alongamento esta semana, ouviu?  


 Enquanto coloco água na chaleira para preparar minha dose de 

cafeína matinal, percebo uma ligeira excitação no exército 

inimigo. “Está  bem, está bem, vou fazer um chá de ervas, verdes, 

orgânicas, repletas de vitamina C, certo?” Assim aceito os “bons 

garotos” em campo, assumindo a liderança... 


 Uma das coisas mais acertadas que fiz nos últimos tempos foi 

assumir a presença  de duas forças contrárias dentro dessa minha 

linda cabecinha. Tudo parece mais simples desde então, simplista,  

dualista, sim, claro!  


 Não acredite que o fato de aceitar os dois exércitos  e 

carinhosamente chamá-los de meus, tenha sido um processo indolor 

e rápido... Não, isso não! Existe  aí, pelo menos vinte anos de 

árduo trabalho intelecto-emocional, isso eu admito! 

 Tudo começou, tenho certeza, quando coloquei fogo, 

deliberadamente, num formigueiro na soleira da casa  de minha 

avó. Nada de mais?  


 Aconteceu aos dez anos de idade, foi o primeiro episódio que 

marcou minha existência ele abriu, digamos assim, as portas da 

minha consciência do “Bem e Mal”. 


 Os formigueiros sempre me fascinaram. Ficava encantada com a 

organização de classes daqueles minúsculos seres. Passava parte 

de minhas férias, analisando cuidadosamente o “material” 

transportado por aqueles incansáveis soldados e nada me deixava 

mais excitada do que a visão de um combatente em ação, carregando 

um grão de arroz cozido ou mesmo uma folhinha verde, picotada com 

maestria. 


 A soleira daquela porta foi testemunha  viva  do primeiro 

embate. Depois de alguns dias de intensa  observação, comecei a 

sentir os primeiro sinas de crueldade despontando em minha 

cabeça. Fui tomada por um desejo insistente,  a idéia de colocar 

fogo na porta de entrada do formigueiro, dominou-me por completo. 

 

A visão da fumaça tomando conta das ante-câmaras, o corre- 

corre para salvar a vida da rainha, o desintegrar das larvas. 

Tudo aquilo me enebriava! Deitada ao pé da porta, com os olhos 

fechados, já podia escutar os gritos de guerra dentro de minha 

cabeça, a movimentação das tropas, o estratagema!  


 Chegaram mesmo a me convencer que seria por certo um tremendo 

alívio para as pobres criaturas! Destinadas  a passar sua curta 

existência  num ir e vir incessante  e servil, eu poderia 

acelerar seu retorno ao Edén, já devidamente purificadas pela 

chama libertadora. 


Num daqueles dias, durante minha inspeção de rotina na 

soleira, senti que era chegada a hora, o poder de persuasão de 

meu exército maléfico superava e muito, os pedidos sussurados  de 

clemência. Naquela tarde chuvosa, assinei a solução final. 


 Após percorrer parte do trajeto diário daquelas miseráveis 

criaturas, desde a horta até a soleira, escolhi as armas. Peguei 

uma garrafa de álcool na dispensa e uma caixa de fósforos 

gigantes, daqueles que não queimam os dedos.  


 Sentei-me, calmamente, ao pé da porta e derramei,

o líquido em toda a volta  do formigueiro. Cheguei a pensar que 

talvez uma seringa fosse necessária para atingir as profundezas 

daquele inferno social, mas para que perder mais tempo?  


 Encharquei o local e levantei para apreciar a vista. Algumas 

miseráveis já cambaleavam, fora de seu programado rumo. Risquei o 

palito e atirei. Uma ligeira explosão acendeu o clarão. O fogo 

então espalhou-se lindamente, tomando vida. 


 Passou-se tudo num piscar de olhos, mas para mim e meus dois 

exércitos aquela batalha foi longa demais. Antes mesmo da 

extinção completa do fogo, comecei a estranhar a falta de 

movimentação na entrada do formigueiro... O vai-e-vem foi sendo 

tomado por uma mórbida paralisia, um incontável número de 

cadáveres retorcidos jaziam na terra, alguns totalmente 

carbonizados! 


 Abandonei o campo de batalha, perturbada pelos gritos de dor, 

corri para abrigar-me na generosa mangueira do pomar. Sentei e 

chorei. 


 Chorei pela saudade que já sentia, pela morte da rainha e 

porque percebi que existia  dentro de mim uma  legião de 

soldados, tão incansáveis quanto minhas adoráveis formigas, 

soldados em mim. 


Mas por quê fui me lembrar disso agora? Ah, sim, a dose de 

cafeína matinal! O primeiro dilema do dia, tomar ou não tomar 

café preto e forte com o estômago vazio? 


 Acho melhor não ler o jornal de hoje. Recomendações médicas. 

 

Um comentário:

Fátima Vale disse...

uma orquestra de formigas tocando bossa nova para você ,talentosa Gisela!
Parabéns! estou muito contente em te ter descoberto assim...
(um dia te digo como eheheh)

EVOÉ!!

Nos meus ouvidos

Nos meus ouvidos,  o sopro de sua alma penetra em forma de canto A força de sua chama viva,  me aquece e convida a abrir o peito,  a re...